|
Parece quase impossível, mas é verdade: este livro As intermitências da morte, é um dos romances supremos de José Saramago.
A ideia de num determinado País, que por vezes parece ibérico, ter cessado o curso da morte, mantendo-se em vida, sem esperança de cura, os agonizantes ou os sinistrados da última hora (que tão pouco vão conhecer melhoras sensíveis e passam a sobreviver numa espécie de limbo), é já uma ideia fabulosa. Mas os desenvolvimentos desta situação insólita são ainda bem mais interessantes. Com a longevidade geral assegurada, os jovens terão de suportar o custo de tal «milagre». e assim as famílias começaram a não aceitar os seus anciães enfermos, vivos por um fio inquebrável.
De tal modo que, como os óbitos continuam a verificar-se nos países vizinhos, não tardarão os camponeses e depois os burgueses a levar de passeio ao outro lado da raia os seus cadavéricos parentes, deixando lá os corpos já sem vida.
Passarão então a organizar-se, no que vai tornar-se um negócio, as descontentes agências funerárias e as ávidas mafias. A própria Igreja suspira de alívio.
O romance, lento como costumam ser os romances de Saramago, é exaustivamente dialéctico, conversando o narrador a todo o momento com os leitores. O estilo torna-se por vezes voluntariamente pomposo, com grande carga irónica, quando surgem as preocupações, as manobras e os discursos dos políticos e governantes.
Mas um dia a morte volta e restabelece-se a normalidade. Só que passa a enviar um sobrescrito cor de violeta, com o desagradável anúncio de termo da existência, àqueles cuja vida vai ceifar. Entretando, ela repara num violoncelista, marcado para esse efeito, cuja existência foi particularmente seca e vazia. Sem ter alguma vez conhecido mulher, vive solitariamente, com a única companhia de um cão e do seu violoncelo.
Interessada pela aspereza e abandono dele, a morte ouve-o tocar num concerto e, já sob a forma de uma bela mulher, aborda-o directamente, oferece-se e furta-se, de tal modo que o músico, inicialmente quase agressivo com ela, acaba por se apaixonar.
A morte visita-o então, de noite, fá-lo tocar maravilhosamente, comove-se ela própria e vivem ambos uma sublime noite de amor.
O corpo gelado da morte misteriosamente aquece e adormecem depois estreitamente unidos.
Ao acordar, vemo-la pegar na carta de sobrescrito violeta, que presumivelmente tencionava ali deixar em cima de algum móvel. Mas o amor é mais forte do que a morte e a ceifeira de vidas acaba por queimar, simplesmente com um fósforo, a condenação cor de violeta.
Estes capítulos derradeiros do romance são apaixonantes e neles encontramos não apenas o razoador cerebral, sempre brilhante e lúcido, mas o Saramago cantor da mulher e do amor das mais famosas páginas de Memorial do Convento ou de O Evangelho segundo Jesus Cristo.
É caso para felicitarmos Saramago e para nos felicitarmos todos nós pelo grande talento, pela capacidade inventiva e dialéctica e pela frescura de sensibilidade e escrita que José Saramago manifesta aos 83 anos. |