ROL DE LIVROS: detalhe da recensão





Categoria: Literatura - Romance
Idade: 6 - 12
Editora: Bertrand Editora
Ano da Obra: 2009


O Romance da Raposa
recenseador: Rita Taborda Duarte, 2010
 
Apreciação:

 
O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, será um dos mais extraordinários livros para a infância publicados em Português: conjuga-se, nesta obra, o relato bem urdido dos argutos casos da vida de Salta Pocinhas, «raposeta pintalegreta, senhora de muita treta», com a tão reconhecível mestria da linguagem aquiliniana, que não dá lugar a qualquer tipo de cedência, no que respeita à simplificação ou ao empobrecimento da Língua. A história é simples: conta as façanhas manhosas da raposa, seguindo o seu natural percurso cronológico, desde raposinha jovem e ladina, até à sua vida de comadre cansada, sabida e cada vez mais trapaceira. Exibindo uma escrita viva, que constrói cenários e ambientes cheios de plasticidade, assim como um apurado uso da ironia e do humor, que encontram eco nas rimas internas e jogos de palavras, o livro mostra como a raposinha, pela sua lábia e argúcia, todos vence: desde o lobo até ao bicho-homem, «aquele bicho de duas pernas que parece que não tem medo de nada e tem medo de tudo, que quer saber tudo e não sabe nada, e por isso é mau, cruel e caprichoso.»
O livro fora editado pela primeira vez em 1924; e esta nova edição, pela Bertand Editora, muito deve àquela primeira, pela manutenção de um certo tom pardo que lhe empresta o aspecto de livro antigo, assim como das ilustrações de Benjamim Rabier. No final da história, como paratexto, é transcrita uma breve entrevista a Aquilino, em que se promete desvendar «as teorias do autor acerca de literatura infantil». Aí, Aquilino Ribeiro explica que, embora tendo uma preocupação de adequar os temas à idade das crianças a que os livros se destinam, diminui tal cuidado no que respeita ao vocabulário: «Se escrevêssemos apenas com as palavras que a criança emprega e de que sabe o significado, medíocre seria o nosso modo de expressão. A leitura de uma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora […] é um obstáculo que vence, penetrando-lhe o sentido por intuição natural.».
E esta funda consciência de que num livro a aprendizagem se faz menos pela informação do que pela fruição do texto, palavra por palavra, torna este texto uma obra-prima, com lugar cativo no Plano Nacional de Leitura.