ROL DE LIVROS: detalhe da recensão





Categoria: Literatura - Conto
Idade: 0 - 5
Editora: Caminho
Ano da Obra: 2010


Sílvio: o domador de caracóis
recenseador: Rita Taborda Duarte, 2011
 
Apreciação:

 
A poesia de Francisco Duarte Mangas sempre estabeleceu uma forte união entre o mundo natural e a linguagem; como se fosse procurada essa língua inaugural, em que as palavras surgem como o primeiro passo para descobrir a natureza. Assim, são os seus primeiros livros de poesia, com poemas muito breves e ao mesmo tempo plenos na revelação de um olhar límpido, renovado, sobre o mundo. A concisão poética é marca dominante da escrita de F. D. Mangas; e quanto maior a concisão, maior a sua espessura também. Essa escrita poética de grande argúcia que lhe descobrimos nos primeiros livros de poesia, é a mesma que lemos também nos textos de Breviário do Sol ou Breviário da Água, escritos em co-autoria com J. Pedro Messeder, e destinados aos leitores mais jovens: Trata-se de reconstruir o mundo terreno, natural, através de um muito simples uso da linguagem, que encanta as crianças, mas que maravilha o adulto por ser capaz de oferecer a lucidez de um olhar primordial.
Neste belíssimo Sílvio ou o Domador de Caracóis, aparentemente diferente dos restantes, encontramos, afinal, o mesmo procedimento que descobríamos em livros anteriores. Não se trata na realidade de um livro de poemas, mas é como se o fosse, pela beleza e pela revelação depositada em cada frase, que vai explorando, de forma desassombrada, o fio condutor do pensamento infantil, face à retórica espantada e maravilhada do adulto. Sílvio vai propondo à mãe profissões para o futuro: «Quando for grande quero ser domador de caracóis. É muito perigoso – diz a mãe.». Mais adiante, sugere «Serei médico das árvores, é mais seguro», ao que a mãe replica: «Onde fica o coração das árvores?». À poesia da colecção de novas profissões que o menino inventa, responde a mãe com a poesia da linguagem, das novas relações, que se vão pressupondo e explorando mutuamente: quando o menino se propõe a «aprender a arte de coleccionar nuvens», a mãe contrapõe: «Choram muito.». E se o menino resolve que há-de «apanhar nevoeiro» como profissão, a mãe, na sua retórica poética, pergunta-lhe onde irá guardar o «nevoeiro nos dias de sol».
A certa altura, Sílvio decide que o seu futuro poderá passar por «cultivar palavras no jardim», replicando a mãe que as palavras «bebem muita água». Mas é, no fundo, o que este livro faz, no diálogo poético e ternurento, entre mãe e filho: semeia palavras no mundo, obrigando-nos a lê-lo sob novos sentidos. A acompanhar o texto, as ilustrações a lápis de cor de Madalena Moniz, muito simples e bonitas, contribuem de modo muito eficaz para ampliar o imaginário poético do livro.