ROL DE LIVROS: detalhe da recensão





Categoria: Literatura - Poesia
Idade: +17
Editora: Assírio e Alvim
Ano da Obra: 2011


Sítios
recenseador: Rita Taborda Duarte, 2011
 
Apreciação:

 
Tradutor há mais de cinco décadas, José Bento tem sido o responsável por dar a conhecer, em português, os mais importantes autores de língua espanhola. Assim, tem sido maioritariamente pela voz de outros poetas que o leitor tem acedido à sua mestria e sensibilidades poéticas.
Sítios reúne textos inéditos, alguns poemas já editados em diferentes revistas literárias, assim como poesias do livro Um Sossegado Silêncio (Asa, 2002), título retirado de D. Quixote, agora novamente resgatado para epígrafe do volume.
Nesta recolha poética, cada poema oferece-se como uma manifestação de sentires, de fragmentárias percepções do mundo. A definição da palavra Sítios, encabeça o volume, relembrando o significado múltiplo da palavra: «qualquer lugar», «cerco ou assédio»; assim, entreabre uma possível compreensão destes poemas avulsos como o todo que afinal são: uma apropriação de lugares, de sítios dispersos, assim como de objectos e suas percepções. Os poemas sucedem-se, como se se acercassem de lugares, não necessariamente espaciais, mas, até, maioritariamente espirituais.
Se pretendêssemos definir esta poesia numa palavra, escolher-se-ia «intensidade». Percorre o livro o tom dramático de uma espiritualidade consistente, aliada a uma reflexão ensimesmada, que, em simultâneo, abriga certa sobriedade clássica e um trabalho profundo, quase maneirista, da linguagem. Em dado momento, sobressai uma incompreensão angustiada aliada à consciência da errância, da própria imprecisão dos lugares esquivos, uma inquietação e turbação, que se vai afinal encontrar como pano de fundo dos poemas: «um murmúrio a que uma toada / concede alada consistência» (p. 118 ), a percepção vaga de um «rosto fugidio, quase cinza» (p.126), «uma estrada, um carreiro / inscrito por passos que não o lembram» (p.127), um «descampado cada vez mais esquivo». Estes sítios, de que o livro fala, são sobretudo imagens, desenhadas com dramatismo, numa estrutura linguística muito densa e reflexiva: «Hoje é sempre ou jamais?», pergunta-se a dado momento.
No final do livro, subordinam-se os poemas a três títulos genéricos: «Jardins», «As Aves» e «Respigo: outra estação». Estes jardins, aqui convocados, serão sítios a desmoronar-se: são jardins de «corolas [que] assumem rostos idos» (p. 210), são jardins de «canteiros injuriados» (p.213), ou de «flores [que] nunca persistem (…)». E, mais do que de espaços, falam-nos sobretudo do tempo, sua passagem, que deixa uma marca destrutiva e de incompreensão no próprio sujeito.
Sítios é, então, um livro muitíssimo profundo e denso, que transporta consigo uma longa herança cultural, exibindo a espessura de um sujeito a confrontar-se com percepções, esparsas, angustiadas, desagregadas. Tudo se torna estado de sítio, tudo se torna lugar e espaço, numa forma de assédio, de um acercar do mundo, pela força, quase brutal, das palavras.