ROL DE LIVROS: detalhe da recensão





Categoria: Literatura - Poesia
Idade: +17
Editora: Publicações Dom Quixote
Ano da Obra: 2011


Lendas da Índia
recenseador: Rita Taborda Duarte, 2011
 
Apreciação:

 
Lendas da Índia, de Luís Filipe Castro Mendes, surge dez anos após o seu último livro, Os Dias Inventados, editado em 2001, pela já extinta editora «gótica». Entre uma colectânea e outra, descobrimos um modo similar de pensar a memória e os dias passados. No livro de 2001, escrevia-se, então: «A memória separa-nos da vida / como um vidro de um espelho.». Agora, num dos poemas de Lendas da Índia pode ler-se: «A memória nada é sem este puro imaginar». Uma funda consciência, portanto, de que as memórias são sempre uma criação do tempo presente, que como um caleidoscópio vê o passado por intermédio de um prisma que o altera necessariamente.
O título do volume é resgatado ao livro homónimo do século XVI, da autoria de Gaspar Corrêa. E num brevíssimo esboço de prefácio, os poemas são apresentados, não como Vislumbres da Índia (tal o livro de Octavio Paz), mas tão só como lendas, entendidas na sua raiz etimológica. Recupera-se, então, como mote, as palavras da advertência de Gaspar Corrêa, no livro quinhentista: «Nenhuma cousa desta vida humana he tão aproveitivel aos viventes que lembrança e memória dos bens e males passados».
Diplomata, Luís Filipe Castro Mendes passou pelos mais diferentes países. Neste livro, é a Índia (embora não só) que ressurge como cenário, o pano de fundo de uma memória, feita sobretudo das palavras e da poesia, de que os lugares se vão revestindo à passagem do tempo. E o que sobressai, afinal, é o modo tão singular como se transmuta um livro que aparenta ser de memórias, de viagens, em poesia, na estrutura fragmentária, não narrativa, a que corresponde o poema: «Houve terras que de tão sonhadas / não puderam ser ditas senão em prosa lenta, /i sto é, em poesia», lê-se no poema «Caminho das Índias». É que a Índia, aqui, a Índia real, a ficcional, a mítica converte-se em visões (por que não também em vislumbres) de um sujeito-poeta que se questiona: «Se escrevo poesia é porque nada tenho para dizer, / porque se tivesse alguma coisas para dizer / dizia-o de outra forma, / sem chamar para o caso a poesia.».
Os poemas de Castro Mendes, com a simplicidade, delicadeza, mas também a argúcia que o distinguem enquanto poeta, têm o valor de uma marca de água: subtis, são em simultâneo reveladores e verdadeiramente impressivos: um apontamento breve, uma ideia concisa é, com frequência, o ponto de partida para tornar o passado no tal «puro imaginar», razão de ser da poesia, aliás tantas vezes repensada ao longo do livro. Sem efeitos metafóricos exuberantes ou arrevesamentos linguísticos, estas memórias são entoadas pela voz, um quanto irónica por vezes, de um sujeito constituído também (diria, talvez, sobretudo) por palavras, ecos de reminiscências poéticas. Versos de Pessanha mas também de Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Luiza Neto Jorge, Alexandre O’Neill, habitam naturalmente esta poesia, mas não propriamente como citações, ou como o convocar da voz de outrem, mas com a espontaneidade de um discurso incorporado e tornado seu.
Em dado poema, lê-se: «Bom, está bem, não serei um verdadeiro poeta: / sou uma nostalgia sem objecto, uma saudade por aplicar / um investimento perdido / para o mercado dos capitais poéticos. / Estou muito velho para não ter qualidades / e sou ainda novo para me imolar pelo fogo.».E isso mesmo traz-no o travo da grande poesia, de um grande poeta.