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O Peregrino Secreto, de John Le Carré, põe em cena um homem que, durante toda a sua vida, foi um honesto e leal agente dos Serviços Secretos britânicos, Ned, o espião de A Casa da Rússia, talvez o mais famoso livro do consagrado autor britânico aqui em apreciação. Já em final de carreira, Ned está colocado como professor numa escola de futuros espiões, a quem tem que ensinar o que os espera, na complexa vida que escolheram. Mas ele não quer transmitir aos seus alunos aquilo a que chama “uma perspectiva branqueada, feitos de cavalaria secreta, de dramas, de engenho e de bravura”. Quer falar-lhes da realidade, e, se nessa realidade houve heróis silenciosos, dissidentes que foram arrancados à última hora de um destino de prisões, tortura e morte, às mãos de governos malfeitores, “homens bons em países maus”, como diz o autor, também houve histórias de enganos e traições do lado daqueles de quem se esperava auxílio, operações mal sucedidas, equívocos e incompetência. Para falar da verdadeira vida de um espião, no jantar de fim de curso, Ned convida George Smiley, a personagem mais famosa criada por John Le Carré – herói da trilogia A Toupeira, The Honourable Schoolboy e A Gente de Smiley - para falar das vivências dos agentes secretos que estes nunca conseguiram exprimir.
Smiley está reformado, retirou-se para o campo, na Cornualha, e ainda vive com Ann, a mulher “de muitos amante”, uma história de amor e um casamento intermitente. Para alguma surpresa de Ned, esse homem, que ele admira acima de tudo mas que considera algo fechado, aparece-lhe bem disposto e muito mais sociável do que aquilo de que ele se lembrava. E encanta o auditório com histórias.
A encher este livro, há as histórias que envolvem Smiley mas também outros espiões famosos, o próprio Ned e vários protagonistas de outros romances de John Le Carré, como o pouco simpático Toby Esterhase, ou o traidor Bill Haydon. É um desfiar de aventuras e de personagens, que o autor analisa com a finura psicológica que é característica da sua escrita.
John Le Carré fala, portanto, mais uma vez de espiões, não como seres aparte, mas enquanto homens e mulheres que, mais frequentemente do que os outros mortais, são confrontados com situações limite. O Peregrino Secreto, editado pela primeira vez em 1991, é um inteligente romance sobre a natureza humana, sem cedências a dramatismos fáceis, temperado com o esplêndido sentido de humor que também é característico deste autor. |