ROL DE LIVROS: detalhe da recensão





Categoria: Literatura - Poesia
Idade: 0 - 5
Editora: Caminho
Ano da Obra: 2011


Eu Só - Só Eu
recenseador: Rita Taborda Duarte, 2011
 
Apreciação:

 
O álbum Eu Só - Só Eu, com texto de Ana Saldanha e ilustrações, belíssimas, diga-se à partida, de Yara Kono, não é a primeira parceria destas autora e ilustradora, na sua incursão pela literatura dedicada aos leitores mais pequeninos, àqueles que, no fundo, ainda são só ouvintes. Em 2010, a mesma dupla assinara também o Papão do Desvão, em que, com um trabalho de linguagem (verbal e pictórica) sempre muito subtil, se ajudava a criança a lidar com os próprios medos e receios. Também este novo livro pertence à linhagem do anterior: um álbum profusamente ilustrado, que toma como ponto de partida a visão da criança, procurando explorar modos de lidar com um sentimento. Neste caso específico, o que está em causa é a presença de um irmão que há-de ocupar o espaço que a outrem pertencia na totalidade. Mas nada disto aparece no texto de uma forma óbvia e imediata; os sentidos vão sendo despertados pelo livro, ao longo das palavras que se sucedem como um poema cadenciado, com pouco mais do que um verso por cada página. A inteligência do texto, a desenvolver-se como uma espécie de partitura, de refrão, que balança por entre as imagens, está na subtileza e na repetição musical das expressões «só meu» e «só eu». Veja-se alguns exemplos deste proceder: « O meu quarto era só meu/ acordava todos os dias só eu» ou «O almoço com a avó – só meu/ comia tudinho só eu!» ou, inevitavelmente, « ao colo da mãe, só meu/ enroscava-me nele só eu.». O texto muito curto, mas também muito expressivo e pleno de significação, reduzindo as palavras, não só ao essencial, mas à sua essência, oferece um percurso gradual para a compreensão (ou melhor a apreensão) dos sentidos do texto, de modo a que a criança chegue às suas conclusões, sem necessidade de mais explicações, ou sequer da mediação do adulto. Quase no final do livro, perante uma galeria de retratos que recuperam em ponto pequeno as imagens que foram correndo ao longo do livro, o remate já sugerido, mas agora afirmado, em toada de lengalenga; «Eu era só eu/só eu era eu/era eu só eu/ eu só era eu». Abre-se, então, caminho para a conclusão final, que fecha o texto com um misto de ternura e humor: «Agora já não sou só eu/ porque tenho um irmão só meu!».
Tanto no que respeita ao texto, como às imagens, como à feliz união das palavras, da sua musicalidade, com o traçado e o movimento do desenho, o resultado é um livro belíssimo, de uma simplicidade que encanta. E assim ficamos a perceber que os sentimentos mais complexos podem ser transmitidos pelas palavras mais simples, desde que estas se tornem exactas, únicas, insubstituíveis; mesmo um livro com uma tessitura verbal muito contida, por vezes, uma simples frase por página, é capaz de atingir também os meandros da grande literatura: explorar sentimentos, emotividades, vivências, que mais fortes se tornam quando a linguagem se deixa concentrar na expressividade da sua forma, ressurgindo quase como uma verdade poética, numa toada repetitiva e, também por isso, marcante e tocante.